Da infância dura no sertão ao sonho de jogar: Robinho 'leva vida' mais uma vez a campo

Robinho é o jogador mais veloz do Santa Cruz. O mais comprometido taticamente e um dos mais promissores atletas do clube, conforme faz questão de ressaltar o técnico Júnior Rocha. É o único atacante do time que balançou as redes na temporada. É também o único atleta do elenco a fazer todas as 11 partidas da equipe em 2018. Elogiado pelo treinador e aos poucos deixando de lado a desconfiança da torcida, o jovem de 23 anos, natural do sertão de Quixeramobim, no Ceará, carrega consigo uma história vencedora. Inspiração e superação que, ele garante, leva para campo a cada partida. Como deverá repetir na desta quinta-feira, às 20h, contra o Flamengo, em Arcoverde, no sertão pernambucano. 


O atacante do Santa Cruz foi mais um dentre tantos meninos pobres da pequena cidade de Madalena, 20 mil habitantes, a 180 quilômetros de Fortaleza. Robinho e outros seis irmãos foram abandonados muito cedo pelo pai. Orgulha-se de dona Maria Aurilene que, sozinha, fez de um tudo para sustentar ele e os irmãos. “Ela trabalhava na casa dos outros, fazia qualquer coisa para levar comida para casa”, recorda. “Às vezes, era só o feijão para comer no dia. Mas fome mesmo, nunca passamos, graças a Deus.”  Cinco anos depois de deixar a cidade, o atacante tem na casa nova que deu à mãe o maior orgulho da vida. “Hoje a gente já pode comer uma ‘coisinha’ diferente lá em casa. E quero poder dar muito mais”, afirma.

De voz firme, Robinho não conseguiu segurar a emoção ao rememorar o começo de carreira. Destaque na escolinha do Barcelona, em Madalena, ganhou a oportunidade de fazer um teste no Ceará aos 17 anos. O problema era como chegar em Fortaleza. Robinho nunca tinha ido para tão longe de casa. Pior do que isso: não tinha como pagar para chegar e depois passar a viver na capital do estado. Conhecido na cidade, partiu para a famosa vaquinha. 

“Fui para a rua pedir dinheiro. Fui aos amigos, à prefeitura”, recorda. “Chegando lá, lembro que eu tinha uma chuteirinha chamada Madri e vi todos os meninos usando Nike, Adidas, parei e pensei: ‘Meu Deus, o que é que eu tô fazendo aqui?’. E pus meus pés em cima da chuteira para ninguém ver, pois era muito diferente da dos outros”, lembra, hoje sorrindo.

O fato é que, independentemente do resultado do jogo desta quinta, pode-se dizer que Robinho já entrará em campo vencedor. Pela história de vida e pelo que vem conquistando em campo, evoluindo com o time que já não perde há seis jogos. “Robinho é o nosso ‘mortorzinho’. Tecnicamente, talvez não seja uma unanimidade. Ele tem problemas ali no último terço de campo, tem que melhorar nisso. Mas taticamente para nós é o jogador que melhor cumpre a função. Estou extremamente satisfeito”, disse Júnior Rocha. Robinho está emprestado ao Santa Cruz pelo Ceará, onde tem contrato até o fim de 2019.


Promissor


Na visão do treinador coral, todo o comprometimento de Robinho fará ele ir longe. Segundo Rocha, em pouco tempo, o atacante vai estar em um grande clube do país. “É um profissional de alto nível, de alto comprometimento, que deixa o ambiente sempre bom. Você olha para ele e isso já te traz uma coisa boa. Ele precisa melhorar agora esse aspecto técnico do último segundo terço ou último terço do campo. Robinho é um menino que ainda tem muito a evoluir, é um atleta que com certeza ainda vai rodar em equipes maiores, principalmente da Série A. Escuta o que estou dizendo”, ressaltou. 


Entrevista com Robinho


Robinho, você tem trabalhado seu condicionamento físico para fazer todos os jogos do ano até aqui?
Minha parte física está muito boa e eu procuro trabalhar sempre no dia a dia. Graças a Deus e ao professor Jean (preparador físico). Mesmo tendo chegado depois, no dia 2 de janeiro, consegui ficar bem fisicamente. Sou muito grato ao professor (o técnico Júnior Rocha) pela confiança e a oportunidade. Pude aproveitar bem as chances que tive. Agora é dar sequência porque o trabalho tem sido muito bom, muito intenso e procuro cada vez mais manter essa confiança que ele tem em mim.


"Robinho é o nosso 'mortorzinho'", disse o treinador Júnior Rocha
O ataque do Santa não está bem, você é o único atacante de ofício que fez gol. Por que o ataque não deslanchou ainda na temporada?


Acho que é coisa de momento. Temos de continuar trabalhando para fazer o gol quando a chance aparecer. Mas todos ajudamos bastante a equipe taticamente e uma hora as coisas vão melhorar.


Como você avalia esse teu começo de ano?


Estou satisfeito pelo momento que estamos passando, já que todo mundo falava que nosso time era ruim, mas focamos bastante no dia a dia. A questão é trabalho. Sei que poderia estar rendendo mais, fazendo mais gols, mas é tudo no momento certo. É trabalhar porque o grupo é bom e está cada vez mais fechado, unido. E quando o conjunto está bem, o individual melhora. 


Você é do sertão do Ceará. Conta um pouco como foi o teu início de carreira. 


Minha base foi no Ceará. Cheguei com 17 anos lá, após uma avaliação que eu passei. Disputei três Copas São Paulo pelo Ceará, depois fui emprestado para o Itapipoca-CE, onde fiz um bom Campeonato Cearense (2014), pude fazer gols, dar assistências, me destaquei. Voltei de vez para o profissional do Ceará. Em 2015 fui emprestado para o Confiança. Joguei toda a Série C como titular (fez três gols em dez partidas) e perdemos no jogo do acesso diante do Londrina. Em 2016, passei pelo Novo Hamburgo-RS e disputei o Campeonato Gaúcho por lá (onde fez 13 jogos e dois gols), foi uma experiência muito boa, já que o campeonato lá é bem pegado. Em 2017 fui para o Cuiabá (fez 12 jogos e não marcou gols), joguei o Campeonato Mato-grossense e fui campeão lá. Na Série C, não conseguimos passar de fase. Então, já tenho uma boa rodagem e para a Série C me sinto um cara experiente. 


Como foi que você deixou Madalena-CE para chegar a Fortaleza?


Minha infância foi bem complicada. Tenho seis irmãos e minha mãe é separada do meu pai. Então, teoricamente, a minha mãe foi mãe e pai para a gente. Tenho pouco contato com meu pai, já tem uns 8 a 9 anos que não o vejo. Quando fui para o Ceará, lá em Fortaleza, minha mãe perguntou se era isso que eu queria mesmo. Falei que queria isso. Infelizmente, ela não tinha condições financeiras de me ajudar a ir para lá. Me juntei com um amigo meu, Francisco, que iria comigo, e saímos pelas ruas pedindo a algumas pessoas, à prefeitura... E como eu era bem quisto por todos lá, por jogar futsal na cidade, então alguns treinadores de futsal me ajudaram e eu pude ter um dinheiro bom para chegar em Fortaleza (com R$ 300 no bolso). Como nunca tinha saído da minha cidade, nunca tinha pego um ônibus na vida, então para mim foi bem difícil. Foi um desafio onde sofri muito no começo, mas tudo valeu a pena. Já conquistei algumas coisas na vida, já realizei alguns sonhos. Já pude dar uma casa à minha mãe, que era um dos meus sonhos. Sou muito grato a Deus pelo que eu conquistei e por tudo que passei e estou passando na minha vida. 


Sobre a tua infância, como a sua mãe sustentou você e seus irmãos?


Ela trabalhava muito, tudo que aparecia ela fazia. Tanto na casa dos outros ou fazendo qualquer coisa para sustentar a gente. Passamos por muitas dificuldades, mas não cheguei a passar fome. Quando tinha só o prato de feijão, a gente comia só o feijão. A gente comia o que tinha para o dia. Só tenho a agradecer a minha mãe, e sou muito grato por tudo que Deus fez e tem feito na minha vida e na da minha família. Hoje podemos comer algo diferente em casa. A tendência é só melhorar. 


E como foi o seu início como atleta na sua cidade?


Eu jogava em um time amador de futsal do meu bairro, chamado Barcelona. Até hoje eu tenho a camisa do time guardada. Eu faço patrocínio para o time dos meninos, colocando meu nome na camisa. Então comecei no Barcelona, em escola, jogando interclasses. E o convite para o Ceará surgiu porque teve um amistoso do time Master do Ceará lá na minha cidade. Como era master, eu não poderia jogar, mas o Francisco, meu amigo, chegou para um dirigente da base do Ceará na época (Edmundo Silveira, goleiro da seleção de Master), e perguntou se eu teria como fazer uma avaliação para tentar entrar na base. O dirigente disse que iria ver isso e ligaria quando surgisse a oportunidade para eu poder ir fazer. Lembro que em 2012, no meu primeiro dia de aula no ensino médio, ele ligou para o Francisco e disse que no outro dia eu teria que estar lá, às 13h. Da minha cidade para lá são umas três horas de viagem, e fomos de carro. Cheguei e, para um menino do interior que nunca viu nada daquilo, tanta gente, tanto carro… Quando cheguei no lugar do treino, sentei no banco. Eu tinha uma chuteirinha chamada Madri e vi todos os meninos usando Nike, Adidas, parei e pensei: ‘Meu Deus, o que é que eu tô fazendo aqui?’. E pus meus pés em cima da chuteira para ninguém ver, pois era muito diferente da dos outros. No primeiro treino era só físico, mas como eu era do interior e vivia correndo atrás de bola, eu me destacava nisso. Numa sexta-feira, fiz um amistoso e pude ir bem no jogo. Depois o técnico, que era o Sérgio Alves (ex-atacante), falou os nomes de quem tinha passado e eu fui o único atacante a entrar. Na hora chorei muito, corri para ligar para a minha mãe e contar para ela, e vi que ali Deus tinha preparado na minha vida. 


E como que foi para voltar para a tua cidade e ir para Fortaleza novamente?


Fui no fim de semana para a minha cidade e voltei na segunda-feira para Fortaleza. Aí foi quando eu precisei sair pedindo dinheiro para me ajudarem a ir para lá. Consegui arrecadar R$ 300, o que na época era um bom dinheiro, mas não tive como ficar no alojamento do Ceará logo de início. Fiquei três semanas na casa de um amigo meu. Ou eu só ficava no clube e ou casa dele. Era ele e a esposa dele. Eles saíam para trabalhar e eu ficava lá quando não tinha treino. Mas em um certo momento eu não aguentava ficar muito tempo lá porque eu sentia que estava incomodando e queria sair logo. Do jeito que ele me deixava no sofá para dormir ou fazer qualquer coisa, eu estava igual quando ele chegava. Ficava constrangido demais. Levei minhas coisas para o clube e, terminando o treino, falei com o diretor e disse que não poderia ficar mais na casa desse amigo meu. Ele disse que iria me colocar no alojamento. Daí, graças a Deus, foi onde as coisas começaram a mudar. Comecei a ganhar uma ajuda de custo e de R$ 200 e mandava 100 para a minha mãe. Naquela época, 100 reais era muito dinheiro e dava para me virar. Meu ano do sub-17 foi muito bom. Fui artilheiro do cearense da categoria. Fiz contrato com o profissional do Ceará e tenho contrato lá até 2019.


E tem algum irmão seu que virou jogador também?


Não. Entre os homens, sou o mais velho. mas tenho duas irmãs mais velhas. Tenho um irmão que joga futebol também, mas só lá pela cidade. Até hoje mando dinheiro para a minha mãe, ajudo os meus irmãos. Pretendo trazê-la um dia aqui (no Recife) para conhecer a cidade.

 

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